O Rei de Arkanum – Terceira Parte

Segurando a katana-kin embainhada, com sua empunhadura de aço celestial, Kamanui liderava o reduzido grupo de volta ao local onde o demônio fora invocado. O chão ainda tinha uma marca queimada onde o monstro surgira. O altar onde a garota fora amarrada continuava no mesmo local. Mas o Rei de Arkanum não estava por ali.

— Eu disse que ele não estaria aqui nos esperando — Will do Martelo disse de forma rabugenta.

— Quieto, Will. Estamos procurando rastros — o elfo resmungou agachado, tateando o gramado. Sua perna ainda formigava, dias após descongelar.

— E desde quando minha voz o atrapalha a procurar pegadas?

— É impossível me concentrar com sua voz irritante! — Marc olhou para o anão com a cara emburrada.

O samurai sorriu. Ele achava engraçado como os dois, mesmo depois de tantos anos vivendo juntos e participando de várias aventuras, viviam discutindo.

— Ele foi naquela direção — o elfo finalmente disse.

Caminharam por algumas horas seguindo o rastro. No meio do caminho, encontraram alguns corpos secos espalhados pelo chão. Avistaram uma coluna de fumaça vinda de algum local no horizonte. Quando chegaram mais perto, encontraram um vilarejo em chamas. Atravessaram pelas ruas do vilarejo e verificaram que não existiam sobreviventes.

— Ele passou por aqui — Marc afirmou o óbvio.

Prosseguiram pelo resto do dia e por vários outros. Conforme iam avançando, os vestígios da passagem do Rei de Arkanum ficavam cada vez mais fortes: mais corpos e mais cidades destruídas. Os poucos sobreviventes que encontravam estavam apavorados e tinham relatos confusos sobre um monstro gigantesco. No décimo dia de busca, eles avistaram no horizonte a criatura que procuravam.

— Pelos sóis de Leonar! — Will disse, assustado.

O demônio estava muito maior que quando o viram pela última vez — centenas de vezes maior! Atacava um vilarejo e projetava-se muito acima das maiores casas, que batiam em seu tornozelo. A população corria desesperada pelas ruas e tentava fugir do monstro de dimensões colossais. Ele abaixou-se e cravou a mão com garras de águia no chão, capturando um grupo de uma dezena de habitantes do vilarejo. O monstro levou a mão próxima à boca e sugou uma corrente de névoa branca que fluía das pessoas. Ele abriu as garras e os corpos caíram secos e sem vida. Em seguida, destroçou uma casa e pegou alguns habitantes, repetindo o gesto de sugar suas essências.

— É impressão minha ou ele está crescendo? — Marc perguntou.

— Parece que a cada vez que ele suga a vida das pessoas, ele cresce um pouco — Kamanui respondeu.

— E eu achava que o dragão branco seria nosso maior desafio… — o anão comentou.

...

Quando chegaram no vilarejo, o demônio ainda estava destruindo propriedades e sugando a vida dos habitantes. Esconderam-se atrás de uma casa em ruínas próximo a uma das patas de águia que serviam como pés para o monstro. A espessura de cada dedo era maior que troncos de árvores centenárias da Floresta da Alvorada, Marc constatou.

— Kamanui, aproveite que ele não nos viu — o elfo disse. — Crave a espada e termine logo com isso.

O samurai assentiu e sacou a katana. Conforme o cabo foi sendo retirado da bainha, foi possível perceber que não existia uma lâmina. Minúsculos cristais de gelo surgiam da bainha e aderiam ao cabo, um a um, formando uma impressionante lâmina de gelo translúcida, extremamente afiada no gume e com lascas de gelo na parte oposta. Eles ainda não haviam desembainhado a katana-kin, a espada que o deus dos samurais usou na Guerra dos Deuses. Era impossível não se impressionar.

— É uma honra empunhar sua katana, Tatsu-kin! — o samurai agradeceu de olhos fechados ao deus que criou aquela arma.

Ele correu em direção à perna do gigante com a agilidade que os anos de treino na arte samurai lhe concedeu. Saltou e cravou a espada em um dos enormes dedos dos pés de águia do demônio. Mas nada aconteceu. Nem mesmo uma gota de sangue foi jorrada. O Rei de Arkanum, como que enxotando um inseto inconveniente, mexeu o pé e arremessou o samurai para longe dali, fazendo-o colidir com as paredes arruinadas de uma casa. O elfo e o anão correram na direção.

— Não funcionou! — Will afirmou. — Por que não funcionou, Kamanui? — perguntou.

— Não consegui atravessar a couraça que o protege. A magia congelante só deve funcionar se atingir a corrente sanguínea.

— Se a espada de um deus não foi capaz de furar esse bicho, como faremos? — o anão estava à beira do desespero.

— Precisamos acertar em um de seus olhos — Marc afirmou.

— Sim! — O samurai levantou-se e empunhou novamente a espada ancestral. — Mas como chegaremos até lá?

— Só existe uma forma. — O elfo tinha uma expressão séria.

— Você não está pensando em…

— Sim, Will. Exatamente isso.

O elfo saiu de trás da casa e começou a lançar flechas na direção do rosto do gigante. O plano surtiu efeito e o demônio voltou sua atenção para o arqueiro. Mesmo daquela distância, foi possível ver um sorriso na bocarra cheia de dentes pontiagudos da criatura. O samurai posicionou-se ao lado do elfo, assim como o resignado anão. O Rei de Arkanum abaixou e capturou o grupo com as enormes garras da mão direita.

— Então vocês voltaram — o demônio disse levando-os, presos nas garras, para próximo ao seu rosto. — Confesso que achava que não voltariam. Só não decidi se são muito corajosos ou muito imbecis.

— Sentimos falta da sua cara feia — provocou o anão.

— Hahahaha! — o demônio gargalhou. — Muito engraçado. Uma pena que sugarei sua essência.

— Agora, Will! — Marc gritou.

O anão segurou com força seu martelo e invocou a magia do terremoto. Um grande tremor atingiu as garras da criatura, forte o suficiente para que abrisse um pouco os dedos. O samurai aproveitou a brecha e saltou sobre o rosto do mostro com a katana-kin em punho, pronta para cravar em um de seus olhos. O demônio, porém, moveu levemente o rosto e o samurai cravou a espada de gelo no nariz do gigante. Ele largou o elfo e o anão e moveu a mão para retirar o samurai, que estava com a espada cravada na sua forte couraça, segurando firmemente para não cair.

Marc e Will caíram por vários metros e viram o chão e a morte se aproximando rapidamente. Quando estavam passando próximo ao joelho do monstro gigante, Marc conseguiu agarrar-se a uma proeminência de uma escama e, com a outra mão, segurou na perna do anão.

Ficaram ali pendurados por alguns segundos, até que o rabo do monstro, semelhante ao de um crocodilo, aproximou-se um pouco mais. Marc arremessou o anão na direção do rabo. Will escorregou e rolou pela cauda do monstro, às cambalhotas, até o chão. O elfo saltou no rabo e foi correndo por ele até chegar numa altura razoável e saltou, aterrissando num rolamento planejado no chão. A destreza do elfo era uma de suas maiores qualidades.

— Bom, obrigado, Marc — o anão agradeceu, enquanto levantava-se e ajeitava o elmo. — Mas da próxima vez você me avisa antes de me arremessar como um saco de estrume.

Marc não respondeu. Estava olhando em direção ao rosto da criatura para ver se o plano havia funcionado. O samurai estava segurando a espada congelante cravada no nariz do demônio, que tentava tirá-lo de lá pinçando-o com suas enormes garras. O samurai movia-se habilmente evitando que o demônio o segurasse.

— Já chega, inseto! — o Rei de Arkanum gritou, impaciente. Abriu a mão de forma espalmada e deu um tapa no rosto, como fazemos para matar um mosquito irritante. Quando tirou a mão, o samurai não estava mais lá. O demônio sacudiu um pouco a mão e o corpo esmagado e ensanguentado de Kamanui voou para longe. Sem o contato do samurai, o gelo da lâmina da espada derreteu e o cabo de aço celestial caiu quicando no corpo da gigantesca criatura.

— KAMANUI!!! — Will gritou. — Esse maldito matou nosso amigo, Marc! Como vamos fazer? Como vamos vencê-lo? — agora ele estava desesperado.

Marc estava olhando para o chão, triste. Já era o terceiro membro do grupo que morria desde que encontraram aquele terrível demônio. Ele nunca havia se enturmado àquele heterogêneo grupo, mas viveram juntos por muitos anos, sobreviveram a muitos inimigos terríveis. Ele, no seu íntimo, também duvidava se poderiam vencer aquele poderoso rei infernal, mas decidiu que não desistiria antes de morrer.

...

Will e Marc esconderam-se no interior de uma das casas do vilarejo. O demônio, depois de esmagar o samurai, estava à procura dos dois. O anão estava com seu martelo em punho e o elfo contava as poucas flechas que ainda restavam na sua aljava.

— Você viu onde a espada caiu? — Marc perguntou de repente.

— Que espada?

— A congelante, Will! — o elfo respondeu irritado — A katana-kin…

— Ah, sim… Caiu perto do templo. — Ele ainda não tinha entendido o motivo daquela conversa. — Mas ela não funciona só com os samurais?

— Só funciona com os honrados… — o elfo estava pensativo. — Tatsu-kin é o deus da honra. Acho que pode funcionar conosco.

— Acha?

— Tem de funcionar! — ele guardou o arco nas costas e saiu da casa.

O anão seguiu o elfo, que corria em direção ao templo de Leonar. Chegando à sagrada construção ainda intacta do templo, passaram a procurar pelo cabo da espada. O templo era de pedra branca com o teto abobadado e o desenho dos sóis acima dos portões da entrada. Aos pés dos degraus que ascendiam à entrada estava o objeto que eles procuravam.

— Ali! — apontou o anão.

Will chegou primeiro, mas evitou tocar no artefato divino. Tinha certo receio de não ser julgado honrado pelo deus samurai. Marc chegou logo depois e pegou a arma sem pestanejar. Mas nada aconteceu.

— Maldição! — reclamou.

— Acho que só funciona junto com a bainha — o anão sugeriu.

— Isso! Muito bem, Will! — deu um tapa nas costas do amigo. — Vamos procurá-la.

Poucos segundos após terminar essa frase, o templo de Leonar desmoronou — o demônio havia pisado nele com seus gigantescos pés de águia. Os escombros ruíram na direção deles, que foram parcialmente soterrados. O anão retirou os escombros, ergueu-se e gritou para o elfo:

— Marc, encontre a bainha. Eu vou mantê-lo ocupado.

O elfo olhou com certo receio para o anão, mas decidiu fazer como pedido: correu e não olhou mais para trás. Procurou de viela em viela pelo vilarejo até que encontrou o corpo desfalecido e irreconhecível do seu amigo samurai. Imediatamente seu estômago embrulhou — a visão não era nada agradável. Respirou fundo, aproximou-se com cautela e retirou a bainha do corpo do samurai.

— Vingarei sua morte, meu amigo — disse enquanto encaixava o cabo na bainha. — A sua e dos demais.

Ele sacou a espada rezando para que fosse honrado o suficiente para que a magia funcionasse. O alívio percorreu seu corpo quando viu os cristais de gelo formando magicamente a lâmina congelada.

— Obrigado, Tatsu-kin. Honrarei o seu nome e prometo devolver a espada assim que terminar com ela.

Então o chão começou a tremer. O elfo imediatamente pensou no anão e seu martelo mágico. Dessa vez o tremor foi tão grande que as casas começaram a desabar. O elfo teve que correr pelas ruas para não ser soterrado. Quando estava livre do perigo, observou que uma enorme cratera estava sendo aberta no chão, consumindo as casas e tudo mais. O Rei de Arkanum também estava sendo sugado para dentro do buraco.

— Muito bem, Will!

Marc correu em direção à cratera, no local onde o monstro estava. Ela era tão grande e profunda que apenas a enorme cabeça do demônio estava visível. Quando chegou mais perto, percebeu que o demônio segurava o anão com suas garras na altura do rosto. Will estava desacordado e o Rei de Arkanum preparava-se para sugar sua essência vital. Marc acelerou o máximo que podia.

— Não morra, seu anão irritante! Não morra!

Quando Marc chegou na borda da cratera, uma névoa branca começou a sair do corpo do anão. O elfo utilizou o impulso da velocidade da corrida e saltou na direção do demônio. Vários metros separavam a beirada da cratera da cabeça do monstro…

Marc percorreu todos esses metros, uma distância aparentemente impossível, e caiu no topo da cabeça gigante. Rodeou um dos enormes chifres e cravou a espada congelante no olho do meio da testa do Rei de Arkanum. Nesse exato momento, o elfo sentiu um frio intenso percorrendo seu corpo, como se tivesse sido soterrado nas Montanhas de Gelo. Ele sentiu um sono muito forte, seus olhos ficaram pesados como se sustentassem todo o peso do monstro gigante. Antes de apagar, porém, pôde perceber que uma fina camada de gelo cobria o corpo do demônio.

...

Quando Marc Cardiel acordou, estava de noite. Um belo céu estrelado e uma lua cheia iluminava o continente. A noite era o domínio de Nosrredram e os demais deuses do mal, mas naquele momento a paisagem parecia simplesmente bela. Uma fogueira estava acessa ao seu lado e ele estava enrolado em um monte de mantas de peles de animais.

— Cara, achei que você ia morrer — uma voz conhecida falou ao seu lado.

Marc levantou rapidamente com um largo sorriso no rosto. Will do Martelo estava sentado ao lado da fogueira roendo alguma comida desidratada.

— Parece que a espada suga o calor do corpo do portador para acionar a magia congelante — o elfo constatou e, de repente, lembrou do demônio. — E o Rei de Arkanum?

— Ele ‘tá lá onde deixamos. Acho que vai ser um pouco difícil tirar uma estátua de gelo do tamanho de uma montanha de dentro daquele buraco.

— Então funcionou? — ele procurou a espada, que estava embainhada ao seu lado. — E antes dele sugar sua essência…

— Parece que sim. — O anão olhou para o fogo. — Devo te agradecer mais uma vez por salvar minha vida.

— Se você não tivesse aberto aquele buraco e se arriscado, estaríamos todos condenados.

— É, verdade, não é?

— É sim, Will do Martelo — sorriu. — Você salvou o mundo!

Os dois gargalharam como há muito tempo não faziam. O anão jogou para o elfo um pedaço da carne ressecada. Marc pegou e roeu aquele pedaço percebendo que estava com muita fome, como se não comesse há séculos.

— E agora, Marc? O que vamos fazer? — Will perguntou.

— Bom — ele segurou a espada que pertencia a Tatsu-kin e aos seus seguidores —, primeiro precisamos devolver a katana-kin.

— E depois?

— Depois, meu amigo — olhou para os céus e as estrelas, mas enxergou muito mais do que os olhos eram capazes de ver —, somente os deuses podem dizer…

– Por Leo Jardim

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Uma resposta a O Rei de Arkanum – Terceira Parte

  1. Daniel Willian disse:

    Muito boa leitura, parabéns!

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