O Guardião da Torre de Albon – Episódio Quatro

Um novo vício

Por muitos e muitos dias, Carrião debruçou-se sobre uma imensa quantidade de livros, pergaminhos e mapas. Tentou capturar toda a riqueza das informações que se desabrochavam a sua vista, cada vez mais fascinado pela incrível tarefa de aprender. As horas de seus dias se dividiam entre a leitura, a caça e as infindáveis discussões filosóficas com Rodhes, o Sábio-Guerreiro. A leitura se tornara um vício incontrolável, apesar da dificuldade representada pelo vocabulário restrito e a pobreza de significados poéticos em sua vida. Ainda assim, lia religiosamente os livros que lhe eram fornecidos e sempre que terminava um volume, ia até o pé da Torre e assoviava. Não demorava muito, Lormeron, o Curador, arremessava um novo título. Quando chegava o entardecer, Carrião preparava a ceia. Rodhes aparecia ao anoitecer. Comiam, bebiam e discutiam longamente sobre o que o ex-mercenário havia aprendido com o último volume. Carrião se tornara mais comunicativo, mais habilidoso com as palavras e um articulador mais vigoroso. Rodhes, no entanto, sempre o questionava em pontos falhos de suas argumentações, lembrando ao seu aprendiz que ainda tinha muito a lhe ensinar. Certo dia, Carrião veio indagar Rodhes sobre a jornada ao Ocidente da qual ele havia falado alguma vez.

– Você ainda não está pronto. Na verdade, eu acho que está, mas o Senhor da Torre discorda. Sendo ele mais sábio que eu, devo concordar – respondeu Rodhes.

Carrião não se sentia pronto por não saber o que iria fazer nessa jornada. No tempo em que era mercenário, sentia-se sempre pronto. Agora estava descobrindo que era a ignorância que lhe dava a confiança. O conhecimento que adquirira o ensinara a ter cautela. Os dias se seguiram numa rotina de exercícios mentais intensos. Lormeron lançava-lhe agora dois volumes ao término de um. Os dias tornavam-se curtos e as noites foram invadidas por sessões de leitura à luz de velas. As chamas e as sombras dançavam na escuridão da noite e os olhos do jovem leitor flutuavam sobre as folhas brancas e suas linhas negras. Carrião começava a acreditar que estava predestinado a suceder Rodhes. Agora, cada ação tinha um propósito premeditado, uma execução planejada e um resultado esperado. Nos treinamentos de combate, cada movimento era criticado, analisado e aperfeiçoado. Os livros lhe davam argumentos para tomar cada decisão, como lajotas com as quais se constrói uma escada, uma escada que levava a um patamar superior. Causa e efeito. Ação e reação. Lógica. Eficiência. Conhecimento.

Em uma manhã enevoada, Carrião terminou mais dois volumes e se aproximou da Torre. Assoviou como sempre fazia para pedir outros livros. Mas desta vez, não houve resposta. Imaginando que talvez o Curador pudesse estar dormindo, repetiu o sinal e gritou por ele. Novamente, não obteve resposta. Neste momento, Rodhes surgiu cavalgando da floresta.

– Lormeron não responde meu chamado. Já terminei esses aqui – disse Carrião, indicando os livros.

– Onde estão todos os outros livros que você pegou? Acho que é hora de devolvê-los. Lormeron acha que está pronto para uma primeira missão.

Os olhos do aprendiz se arregalaram de surpresa. Aquele era um momento bastante esperado por ele. Alguns meses haviam se passado e Carrião mudara bastante, ficando confinado as tarefas que lhe eram exigidas e ao intenso estudo ao qual se dedicou. Satisfeito, buscou as dezenas de volumes que havia lido. Ficavam guardados em um baú de madeira que ele mesmo construiu para esta função. Rodhes fez um sinal com a cabeça e sorriu, aprovando a solução encontrada por seus pupilo para armazenar aqueles bens tão preciosos. Tomou uma das alças do baú. Olhou para Carrião e indagou:

– Não vai ajudar esse velho homem a carregar esses livros até o alto desta imensa Torre?

Carrião engoliu seco. Pela primeira vez ele entraria na Torre de Albon. Talvez pudesse até mesmo conhecer o poderoso Curador. Agarrou a outra alça com empolgação. Rodhes olhou-o nos olhos.

– Você acha que está pronto?…

– Por Carrião, o Guardião da Torre de Albon

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