O Guardião da Torre de Albon – Episódio Dois

O Sábio-Guerreiro (parte 02)

O cavaleiro começou a se aproximar do único oponente que ainda tinha condições de combate. Todos os outros se arrastavam como podiam para sair dali e se esconder.

– Você não irá sobreviver a um combate contra mim. Por que não faz como teu senhor e foge enquanto tem pernas? – indagou o cavaleiro com uma voz tranquila. O mercenário usava armadura negra e uma espada manchada pelo sangue de suas vítimas. Seu elmo, ornamentado com longos chifres, lhe cobria toda a cabeça e escondia seu rosto.

– Quero saber pelo que lutas – respondeu ao cavaleiro.

– Pelo que luto? Ah, um homem cruel como tu jamais entenderia o que está por trás de minha missão. Ela é nobre demais. Sagrada em demasiado para que compreendas. Vá, enquanto é tempo.

O mercenário abaixou sua espada.

– Diga-me teu nome, cavaleiro.

O cavaleiro era, além de um excelente guerreiro, um homem sábio. Podia enxergar o que está por trás das palavras e o que há dentro do coração dos seres, julgando-os pela lei de Kolthar. Vendo a confusão na mente daquele mercenário, sentiu o dever de ajudá-lo.

– Meu nome é Rodhes, sou o Guardião da Torre de Albon. E tu, quem és?

O mercenário hesitou, mas respondeu.

– Sou Carrião. – fez uma breve pausa – Um mercenário arrependido por seus atos. Tenho vivido espalhando a dor e o ódio sobre a terra, magoando os pequenos e os fracos, roubando-lhes tudo que tenha valor para mim e destruindo aquilo que só tem valor para eles. Tenho sido algo que não quero ser. Não tenho pelo que lutar. Por isso indago-te, pelo que lutas?.

O cavaleiro baixou sua arma.

– Luto pelo tesouro que está na torre. Algo que vale mais que o ouro, ou qualquer outro metal. Algo que vale mais que as pedras preciosas ou as poções mágicas. Um tesouro que, uma vez adquirido, jamais lhe será tomado.

O mercenário não compreendia aquelas palavras. Toda sua vida fora construída com morte e tudo que lhe era mais valioso eram os tesouros que aquele homem desprezava.

– Como pode existir algo assim tão valioso? O que é essa dádiva que supera todas as riquezas que conheço? – perguntou.

Rodhes lhe respondeu:

– O conhecimento, guerreiro. Aquilo que te mostra o caminho da verdade e que te abre os olhos para o mundo. Aquele que tem conhecimento nunca está perdido ou surpreso, pois o sábio está sempre preparado.

As palavras do cavaleiro ressoaram na mente do jovem mercenário, como o som de um sino, um sinal para a vida. Embora tudo aquilo fosse estranho ao seu mundo de sofrimento, tristeza e destruição, ele queria que fizesse sentido. Ele queria que sua própria existência fizesse sentido.

– Tira tua máscara, mercenário. Deixe-me ver quem é, Carrião.

O mercenário levou a mão esquerda ao elmo, retirando-o lentamente. O ar fresco e a fina bruma tocaram seu rosto, fazendo-o sentir um leve desconforto. Mas aos poucos, este desconforto se transformou numa ótima sensação de leveza, de liberdade. Era como se ele recebesse o perdão e apagasse de sua vida todas as mortes que carregava. Quando terminou de tirar seu elmo, deixou-o cair, juntamente com sua espada. A visão daqueles objetos, dos quais nunca havia se separado, chocando-se contra o solo, fez tremer as pernas do mercenário, que logo depois, também caiu de joelhos.

Olhando para o rosto daquela pobre criatura, Rodhes, que era dito o Sábio-Guerreiro, não viu um homem perverso ou um orc ou elfo negro cruel, mas sim uma alma cansada de cometer erros e de pagar por eles, vivendo numa eterna escuridão de ignorância e sofrimento. E Rodhes lembrou-se de seu povo e de tantos que viveram assim antes dele e de tantos que ainda viviam. Porque não são nossas raças ou nações que nos definem, mas sim nossos atos e julgamentos individuais. E como o Curador da Torre de Albon havia dito ao Guardião:

– Nossos julgamentos são limitados por nossos conhecimentos.

Não havia, portanto, como culpar aquele mercenário por seus atos, pois seu julgamento estava restrito às trevas e maldade, das quais só o conhecimento poderia tirá-lo. Rodhes, o Sábio-Guerreiro, pensou que talvez pudesse trazer a luz que remediaria àquela mente moribunda. Talvez pudesse salvar aquela alma como a sua fora salva. No fundo de seu íntimo, pensou que talvez pudesse ter encontrado seu substituto…

– Por Carrião, o Guardião da Torre de Albon

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