Exterminador

Exterminador

Hasta la vista, baby! — o Exterminador disse, antes de explodir o seu inimigo em milhões de pequenos pedaços de mercúrio congelado.

— Pause — Guddar disse. A imagem de cinquenta polegadas projetada na parede oposta paralisou em um close no ciborgue segurando a pistola automática.

O anão levantou de sua velha poltrona cheia de remendos. Tinha, no máximo, um metro e vinte de altura, uma cabeça calva, nariz de batata e uma longa e espessa barba ruiva, presa na ponta por um anel de metal. Usava uma camiseta preta desbotada escrita “Led Zeppelin“. Mancando da perna direita, caminhou até o banheiro. Mijou demoradamente enquanto assobiava. A descarga automática acionou assim que foi lavar as mãos. Caminhou até a cozinha, abriu a geladeira vazia e pegou a última cerveja. A campainha tocou. Caminhou resmungando até a porta, pressionou um ícone com o símbolo de um olho em uma tela de cristal de diamante ao lado da porta e a imagem de um brutamonte de casaco de couro, rosto quadrado e óculos escuros passou a ser exibida na tela. Franziu o cenho. “Que porra é essa?!“, pensou.

Correu mancando até o quarto. Abriu o armário, pegou uma mochila e colocou-a nas costas. Removeu uma pilha de roupas sujas e pegou uma surrada caixa de sapatos. Abriu a caixa, pegou uma pistola Beretta e uma escopeta .12mm de cano duplo. Verificou o pente da pistola e enfiou mais alguns nos bolsos laterais da calça camuflada. Colocou a pistola na cintura, carregou a escopeta e guardou a munição extra nos bolsos. E então ouviu a porta da sala explodir.

Sentiu o cheiro da fumaça e os sprinklers começaram a jogar água por todo o apartamento. “Merda! Vai queimar a TV!“, o anão pensou. Escondeu-se atrás da porta e aguardou. Quando ouviu o brutamonte entrar no quarto, saiu de seu esconderijo e disparou a escopeta à queima-roupa. O invasor recebeu o impacto do tiro e foi arremessado para trás, mas não caiu. No local do tiro, a camiseta branca que usava por baixo do casaco estava rasgada e coberta de sangue e, abaixo da pele, o anão pôde observar partes mecânicas.

— Puta merda! — xingou.

— Guddar Chromenaxe — o brutamonte disse —, venha comigo e não será ferido.

— Nem pensar! — disse, enquanto apontava a escopeta para o alto, mirando a cabeça do invasor.

O brutamonte segurou a escopeta com a mão direita, amassou o cano e jogou-a longe. “’Tá de sacanagem. De onde esse cara saiu?“. Ele segurou o anão pelo ombro e disse:

— Venha comigo ou serei obrigado a machucá-lo.

— Foi mal, meu camarada — respondeu —, mas tenho outros planos.

O anão tirou a pistola da cintura, encostou o cano no antebraço do ciborgue e apertou o gatilho. O som abafado fez seus ouvidos zunirem e o cheiro de pólvora inundou seu nariz. Quando conseguiu concentrar-se novamente, viu que o inimigo havia sentido o golpe. Um apêndice de metal e faíscas saíam do braço robótico. Ele parecia ter problemas em controlar a mão danificada. Guddar aproveitou o momento e correu em direção à janela. Abriu, sentindo o calor do verão soprando forte como um bafo de dragão e observou toda a confusão da rua lá embaixo. Estava no vigésimo sétimo andar e a distância do chão era mortal. Virou-se para trás e viu que o robô havia desistido de tentar controlar a mão direita e sacado uma pistola com a esquerda. Olhou mais uma vez para baixo, respirou fundo e saltou.

Ele caiu por vários metros em alta velocidade, sua longa barba chicoteando seu rosto. As janelas passavam rapidamente numa imagem borrada à sua frente. Tateou a mochila com dificuldade e puxou uma cordinha. O paraquedas abriu e seu corpo recebeu um tranco e sacudiu como um boneco de pano. “Eu odeio isso“, ele pensou. Segurou as guias do paraquedas e desviou do prédio da frente, pisando na janela e observando uma família que via TV, curtindo a monotonia de suas vidas comuns. Aterrissou no meio da rua e quase foi atropelado por um carro, que teve que frear abruptamente.

— Você ‘tá maluco, cara? — o motorista gritou.

O anão tirou a mochila, deixando que o vento levasse o paraquedas para um passeio pela cidade. Sacou a pistola e apontou para o motorista.

— Preciso do seu carro — disse. — É uma questão de vida ou morte.

O homem saiu do carro com o celular na mão. O anão entrou no veículo, que ainda estava ligado. Digitou um endereço no painel e o carro começou a mover-se rapidamente por conta própria. O sistema de som Dolby Digital embutido começou a tocar uma música sertaneja, para desgosto de Guddar. Ele digitou mais alguma coisa no computador de bordo e o rock pesado encheu o ambiente.

...

O carro passou pela praça que chamavam de Cinelândia, que um dia foi um local de referência do cinema e de encontro de cinéfilos, mas degradou e estava entupida de mendigos e drogados. Estacionou em frente a um velho edifício de arquitetura clássica caindo aos pedaços. Abriu a porta e uma voz mecânica anunciou sua chegada: “Seja bem-vindo à Biblioteca Nacional“. A primeira vista da biblioteca era realmente impressionante: vários andares, com centenas de estantes e cada uma delas recheada de livros. O cheiro de mofo era muito forte e uns poucos clientes folheavam os exemplares de folhas amareladas. Quando os livros migraram para o formato digital e as editoras desistiram de imprimi-los, poucos foram aqueles que mantiveram o velho hábito de virar as páginas de papel. Guddar ignorou as estantes e concentrou-se apenas em procurar seu velho amigo.

No terceiro andar, agachado, recolhendo uma grande quantidade de livros caídos no chão, o anão encontrou um sujeito idoso, de cabelos brancos e lisos, rosto enrugado pela idade, usando uma camisa social e uma calça com suspensório. Guddar abaixou e ajudou-o a pegar os volumes.

— Esse livro aqui é um saco — disse segurando um grosso exemplar com quase quinhentas páginas que estava em péssimo estado —, mas o filme foi muito bom.

— Tolkien foi um dos melhores escritores desse mundo — o velho respondeu, ajeitando seus óculos fundo de garrafa e estreitando os olhos para ver o anão. — Conseguiu retratar com uma verossimilhança fenomenal o seu mundo natal nos seus livros. Os filmes não foram tão fiéis.

O anão sorriu com a paixão exagerada do amigo pelos livros. Ele gostava mais de filmes, de preferência os clássicos de ação. Já tiveram aquela discussão algumas vezes, mas dessa vez estava preocupado com outra coisa:

— Então… — Coçou a barba. — Tentaram me matar de novo.

— Sério? — perguntou enquanto empilhava os volumes. — Como foi dessa vez?

— Um ciborgue — disse, encaixando a capa caída de um livro. — Igual ao Exterminador do Futuro.

— Exterminador de que!? — Olhou para o anão com sincera curiosidade.

— É um filme… Um clássico de Hollywood.

— Eles também devem gostar desse filme…

— Eles quem? — Olhou ao redor, verificou que não tinha ninguém escutando e baixou o tom da voz. — Os neo-templários?

— Sim, meu amigo. — Ergueu uma pilha de livros. — Faça-me um favor e me ajude levar esses livros para minha sala, OK? Não podemos continuar conversando aqui. — Olhou ao redor, desconfiado.

Guddar pegou a outra pilha de exemplares caindo aos pedaços e caminhou ao lado do velho amigo até uma sala na área administrativa da biblioteca. Colocaram os livros em uma mesa empoeirada com alguns instrumentos de restauração e o idoso caminhou até uma máquina de café automática. Apertou um botão e, após uma série de sons mecânicos, um copo de café saiu quente por uma abertura.

— Isso aqui é uma das melhores coisas que inventaram nesse mundo — o velho disse.

— Gosto mesmo é das cervejas daqui — o anão respondeu. — Mas, então, Valäendi, o que você sabe sobre os ciborgues? — voltou ao assunto principal.

— Valério! — o velho disse, agitando os braços e derrubando um pouco de café na sua roupa. — Me chame de Valério.

— ‘Tá certo, foi mal, Valério — irritou-se. — Fale sobre o ciborgue.

— Pegaram o Khalin — respondeu tentando limpar a mancha com um guardanapo. — Invadiram a casa dele na semana passada e o levaram. Ouvi dizer que foi uma unidade robótica semi-inteligente disfarçada com uma pele artificial orgânica.

— Um ciborgue.

— Sim, sim, isso. — Desistiu de limpar a mancha e tomou o café.

— Mas o Khalin vacilava muito. Um dia desses, ele entrou voando na minha casa. Estava bêbado e disse que ‘tava com preguiça de usar o elevador. — Levou a mão ao rosto num gesto de decepção. — Mas eu mantenho minha vidinha comum. Não costumo aparecer muito.

— Talvez Khalin o tenha entregado.

— Será que aquele filhote de dragão filho da puta foi capaz disso? — gritou, socando a mesa.

— Não sei que grau de tortura eles são capazes fazer. — Olhou para Guddar com preocupação. — Talvez você deva voltar pra casa, pelo menos por um tempo.

— Pra casa, Valério!? — perguntou, indignado. — Pro nosso mundo!? Pra Morgdan!?

— Sim. — Ajeitou os óculos. — Por que não?

— Os fungos comeram seu cérebro? — gritou. — Tem uma guerra terrível acontecendo lá, esqueceu? Orcs, monstros e demônios por todo lado! — Balançava os braços de forma espalhafatosa. — Um robozinho qualquer não vai me fazer voltar pr’aquele inferno.

Quando terminou essa frase, eles ouviram o alarme de incêndio tocar. Correram para a galeria principal e perceberam que uma estante pegava fogo. Um homem de casaco de couro preto e óculos escuros tinha um lança-chamas nas mãos e ateava fogo nos livros — seu braço direito parecia funcionar novamente. Os poucos visitantes da biblioteca já tinham fugido.

— Droga, Guddar, você o trouxe para cá! — reclamou Valério.

— Não sei como ele me encontrou, cara. — Deu um tapa na testa. — O carro! O maldito rastreou o carro! — Estava desolado.

— Esses livros são relíquias de valor incalculável… — choramingou.

Valério correu até a sacada e saltou. O anão observou o amigo flutuar lentamente até alcançar o chão, pousando com estilo. “Exibido“, pensou enquanto corria para as escadas.

...

— Criatura mística não catalogada, entregue-se e não será ferido — o ciborgue disse apontando o lança-chamas pra Valério.

O velho fechou os olhos com as mãos esticadas a sua frente e uma grande bolha semitransparente surgiu envolvendo o robô e as estantes em chamas. O fogo extinguiu-se lentamente e o lança-chamas parou de funcionar.

Uma bolha de vácuo“, Guddar pensou quando observou a cena. O ciborgue jogou a arma inútil no chão e sacou uma escopeta, que estava pendurada nas costas. Apontou para o velho e disse:

— Diga-me onde está Guddar Chromenaxe ou terei que matá-lo.

Valério fechou os olhos novamente, a bolha de vácuo desapareceu e uma faísca elétrica cruzou pelo seu corpo e concentrou-se na sua mão direita, que estava em formato de garra, com as faíscas de energia dançando e crepitando entre seus dedos. Ele apontou o dedo para o ciborgue fazendo com que a carga elétrica saísse de sua mão em direção ao inimigo. A energia percorreu pelo corpo do ciborgue, que começou a agir de forma estranha, com movimentos aleatórios, soltando a escopeta.

— Muito bem, Valäendi… quer dizer, Valério! — o anão comemorou, aproximando-se com cautela do robô, que parecia estar em curto-circuito, e pegou a escopeta caída no chão.

O anão carregou a escopeta e apontou na direção do rosto do ciborgue, que havia parado de mover-se aleatoriamente e estava totalmente paralisado.

Hasta la vista, baby! — disse pouco antes de apertar o gatilho e disparar contra o inimigo, que recebeu o forte impacto da arma e caiu no chão. A pele artificial de seu rosto foi arrancada e exibia uma espécie de crânio mecânico amassado e chamuscado. Guddar carregou a arma — a cápsula voou e quicou no chão — e preparou para mais um tiro na cabeça do robô.

Antes de conseguir apertar o gatilho, porém, uma luz vermelha acendeu no olho esquerdo do ciborgue, que segurou na perna do anão e derrubou-o no chão, deixando cair a arma. O robô sentou-se, sacou uma pistola na cintura, apontou para a cabeça do anão e apertou o gatilho…

Mas o tiro não saiu — uma camada de gelo cobria a pistola e a mão esquerda do ciborgue. O anão, de olhos fechados, ficou sem reação. O ciborgue bateu com a mão no chão até quebrar o gelo. Valério sentiu uma tontura em função da idade e do esforço excessivo para realizar os feitiços. O ciborgue recarregou a arma e apontou para o feiticeiro. O anão recuperou-se, esticou a mão e agarrou a escopeta. O feiticeiro cambaleou e desmaiou. O robô apertou o gatilho e …. BUM!

O anão levantou com a escopeta soltando fumaça. Observou o que restou da cabeça do ciborgue: uma massa mecânica disforme explodida como uma lata de sardinha aberta. Olhou para o amigo e o viu caído no chão, com o sangre rubro espalhando-se pelo chão de mármore do salão. Sons de sirene podiam ser ouvidos na rua. Correu até Valério e o virou. O tiro acertou sua barriga e a ferida sangrava copiosamente.

— Saia da… daqui… — o velho disse, com dificuldade. — Ago… — Tossiu — Agora!

O anão olhou para a porta e viu que os policiais estavam entrando. Colocou as mãos do amigo sobre a ferida e o deixou no chão sem saber se sobreviveria. Correu mancando e fugiu pela saída de emergência. Pode ter sido apenas consequência do incêndio, mas era possível ver que lágrimas escorriam por sua face.

...

Longe dali, um homem loiro, de calça e camisa social preta, com gola clergyman, observava no seu smartphone uma mensagem que afirmava que uma de suas máquinas havia sido destruída. Pressionou a tela e a imagem de um sujeito calvo, de nariz de batata e barba ruiva apareceu no aparelho. Caminhou por um corredor com belos afrescos bíblicos, abriu uma porta com identificação biométrica e entrou em um grande salão. O clérigo observou mais uma vez a foto no seu gadget e sorriu. Na sua frente estavam dispostos sistematicamente centenas, talvez milhares de homens altos de casaco de couro, rosto quadrado e óculos escuros.

– Por Leo Jardim

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