O Rei de Arkanum – Segunda Parte

Rapidamente publicamos a segunda e penúltima parte do conto “O Rei de Arkanum”. Se você não leu a parte anterior, clique aqui e leia antes. Espero que gostem e, logo logo publicaremos o desfecho dessa história épica. Não esqueçam de curtir, comentar, compartilhar, tuitar e, se for das antigas, contar pro colega. 😀

Contos e Crônicas

O Rei de Arkanum

Segunda Parte

A trilha era tortuosa e o frio era intenso. Seguiam o pequeno guia, que era o único que conhecia essa trilha. Seria impossível chegar até ali sem ele, já que todos os lugares eram iguais: pedras, abismos, encostas, pinheiros e neve, muita neve. O guia era um pouco maior que o anão, mas ainda assim muito pequeno para um humano. Franzino, com um escasso bigode e olhos puxados como o samurai, usava uma manta de algum animal cinzento peludo sobre todo o corpo. Vez ou outra ele se adiantava mais que o grupo e os incentivava a prosseguir em um idioma que apenas o samurai conhecia.

— Ainda falta muito? — o anão perguntou. Ele também vestia uma manta grossa sobre a armadura de aço que ele costumava usar. Pingentes de gelo estavam incrustados em sua espessa barba negra, pendurados na ponta de seu nariz e nos chifres de seu elmo. No ombro, ele carregava o inseparável martelo de combate.

— Ele disse que em dois dias chegaremos — o samurai respondeu. Usava apenas uma capa de lã sobre sua armadura samurai, de placas sobrepostas, e deixava a cabeça desprotegida. Tinha um rosto liso, olhos puxados — a marca do povo tatsunês — e o cabelo negro e liso, que usava preso por uma fita azul, estava com pequenos pedaços de gelo.

— Dois dias? — o anão se assustou. — Estarei congelado se ficar aqui por mais uma hora.

O samurai se adiantou ao grupo para conversar com o guia no seu próprio idioma. Kamanui era um samurai e havia sido criado ali, em Tatsu. Estava acostumado com aquele clima e com o povo daquele reino, que vivia nos vales das Montanhas de Gelo. Mas tinha dias que não viam nenhuma cidade. Estavam tão alto nas montanhas que somente nômades viviam ali. Enquanto o samurai conversava com o guia, o anão perguntou aos demais:

— Por que mesmo viemos até aqui?

— Recuperar a katana-kin, Will — o clérigo respondeu. Usava uma pesada manta de pele de urso branco que cobria o corpo e a cabeça. Tinha uma barba castanha curta e olhos azuis. Pendurado em seu pescoço, estava o símbolo de sua fé: um pesado medalhão de ouro com o desenho dos sóis de Leonar, o deus da luz. — Você já perguntou isso antes.

— Não perca seu tempo com ele, Donarion. Você sabe que ele é irritante assim mesmo — Marc Cardiel, o elfo arqueiro intrometeu-se. Usava um manto de peles marrom, segurava o arco longo na mão direita e a aljava nas costas. Possuía um rosto sem barba, cabelos pretos lisos e as orelhas pontiagudas — marca de sua raça.

— É porque eu ainda não entendi o motivo de subirmos nessa maldita montanha de gelo só pra pegar uma espada mágica — Will argumentou.

— Kamanui acredita que essa espada mágica é a única arma capaz de matar o Rei de Arkanum — Donarion, o clérigo, respondeu paciente, quase didático. — Segundo a lenda, ela pode congelar qualquer criatura viva só com corte de sua lâmina.

— Isso tudo eu sei — o anão insistiu —, mas por que nós teremos que matar aquele demônio? Já salvamos a menina e recebemos a recompensa…

— Não podemos deixar o demônio à solta, Will. — O clérigo começou a ficar impaciente — Temos que derrotá-lo!

— Ele matou Windham! — Marc disse, irritado. — Se não quer vencê-lo pelo bem do mundo, faça-o para vingar o mago.

Will não respondeu, ficou em silêncio por alguns segundos, pensativo. O elfo conseguiu, finalmente, motivar o anão a prosseguir na missão.

— Tudo bem — afirmou. — Mas por que vocês acham que logo nós vamos conseguir encontrar a lendária espada do deus samurai que está perdida a gerações?

— Por que ninguém aqui em Tatsu tem coragem de encarar Bu, o dragão branco — Kamanui disse, retornando para próximo ao grupo.

— Dragão branco!? — o anão perguntou.

— Sim, o guia acredita que a katana-kin está no covil de Bu, um famoso dragão branco dessas montanhas — Kamanui respondeu tranquilamente.

— Então ‘tá certo — Will falou alongando seus músculos congelados —, vamos pegar esse dragão! — agora ele estava realmente motivado.

...

Caminharam pela caverna congelada com muito cuidado. O caminho era complicado, com estalactites e estalagmites de pedra e de gelo espalhados por toda sua extensão, algumas muito cortantes. Um vento muito frio corria pela caverna e parecia tentar arrancar suas almas. Até que, em uma grande galeria na caverna, encontraram Bu.

Deitado, o enorme réptil de escamas alvas estava em um sono profundo. Sua enorme cabeça, do tamanho de uma carroça, estava apoiada nas patas dianteiras, suas asas estavam retraídas e sua calda enrolava-se no corpo harmoniosamente, como um gato aconchegado em uma cama quente e confortável. Mas ao invés de uma cama, ele dormia sobre um grande tesouro: jóias, pedras preciosas, armas, armaduras… e diamantes, muitos diamantes. O dragão branco com certeza tinha algum fascínio especial com esse precioso mineral. Um feixe de uma fraca luz externa refletia nas pedras de diamante e fazia com que milhares de pequenos pontos luminosos se espalhassem por toda a caverna. Era, sem dúvidas, uma bela visão.

— A espada? — Marc perguntou sussurrando para o samurai. — Onde está?

— Acho que posso vê-la embaixo do dragão.

— Posso sentir a maldade nele — Donarion disse. — Não nos entregará facilmente.

— Vou pegar antes que ele acorde — Kamanui voluntariou-se.

O samurai caminhou furtivamente até o dragão. Mesmo naquele silêncio absoluto da caverna não era possível ouvir os seus passos. Quando chegou à pilha de tesouro, porém, tocou suavemente em um cálice de ouro com diamantes, que rolou pelo chão fazendo um ruído que ecoou por toda a galeria. Imediatamente Bu abriu seus enormes olhos azuis.

— Quem ousa entrar em meu covil e tocar em meu tesouro? — o dragão disse, com uma voz grave como um trovão.
Kamanui sacou a sua katana, mas antes que pudesse acertar o dragão, a pata dianteira do réptil o acertou, arremessando-o contra a parede. Depois disso, todos agiram ao mesmo tempo. Will correu de encontro ao dragão e acertou seu focinho com o martelo, Marc arremessou uma série de flechas em seu rosto e Donarion correu em direção ao samurai.

O dragão ergueu-se incomodado com os insistentes golpes do anão e do elfo. Will rolou pela pilha de tesouro, escondendo-se por baixo do réptil, enquanto Marc o castigava com as flechas em seu rosto — uma acertou o seu olho direito, deixando-o caolho e furioso.

— Morram, criaturas irritantes! — o dragão gritou.

Bu abriu a boca e soprou um vento muito frio na direção do elfo, a famosa baforada congelante dos dragões brancos. Marc jogou-se para o lado e rolou pelo chão. O sopro do dragão, porém, acertou sua perna direita, congelando-a por completo. Mesmo caído, sem poder ficar de pé, ele continuou a atirar suas flechas.

O samurai estava muito ferido, com uma estalagmite de gelo cravada na barriga. Donarion aproximou-se e quebrou estaca, removendo-a. O clérigo tentou ignorar a batalha que ocorria, segurou seu medalhão com os sóis de Leonar e rezou:

— Leonar, Senhor da Luz, aceite o pedido deste seu humilde servo e cure a ferida de Kamanui. — Encostou o medalhão na ferida. — Faça de mim um instrumento de seu poder.

O medalhão brilhou intensamente e o samurai sentiu um calor acolhedor e um formigamento no local da ferida. O clérigo tirou o símbolo de Leonar e a ferida estava cicatrizada. Donarion fechou os olhos e agradeceu silenciosamente pela bênção de seu deus.

Enquanto isso, o dragão preparava-se para mais uma baforada, que congelaria Marc por completo. Will, porém, acertou as suas patas traseiras, desequilibrando-o. Kamanui tentou levantar-se e entrar na briga, mas ainda sentia dor.

— Você ainda não está completamente curado — Donarion disse. — Eu seguro o dragão.

Kamanui tentou contra-argumentar, mas o clérigo já tinha virado as costas e caminhava na direção do dragão. Segurava o símbolo de Leonar na mão direita e apontava na direção do réptil.

— Criatura maligna, trema diante do poder da luz! — gritou.

O medalhão brilhou numa forte luz branca, refletindo em todos os diamantes e joias da caverna. O dragão assustou-se e tentou esconder-se da luz, mas não conseguiu e ficou acuado em um canto da galeria. Quando o dragão saiu de cima do tesouro, o anão avistou a espada que procuravam emitindo um tênue brilho azulado. Ele abaixou e pegou a arma, que estava em uma bainha azul, com intricados desenhos que lembravam ondas e gelo.

— Peguei a espada — ele anunciou, indo em direção ao samurai.

— Fujam daqui! — Donarion gritou. — Não poderei manter a luz por muito tempo.

— Não podemos deixá-lo — Kamanui disse.

A luz fraquejou e a expressão de medo de Bu sumiu de seu rosto reptiliano. Ele ajeitou-se e inspirou, pronto para expelir mais um sopro congelante.

— Vão! Agora! — Donarion gritou desesperado. — Derrotem o Rei de Arkanum!

Kamanui segurou o elfo, ajudando-o a erguer-se. Will entregou a katana-kin para o samurai e preparou-se para retornar ao combate.

— Corram! — gritou. — Saiam da caverna!

O samurai e o elfo correram o mais rápido que conseguiram. O dragão soprou profundamente. O clérigo olhou para o grupo sorrindo, com olhar lacrimejante quando o sopro o atingiu e congelou todo seu corpo, imortalizando seu sorriso.

O anão acertou um potente golpe de martelo no chão e acionou a magia do terremoto. O tremor correu por toda a caverna, que começou a sacudir violentamente. Kamanui e Marc correram fugindo das rochas que caíam por todos os lados. Avistaram a luz do dia e conseguiram sair da caverna antes que ela desmoronasse por completo…

— Will! Donarion! — Kamanui lamentou.

E então a entrada da caverna, que estava soterrada por pedras, sacudiu. As pedras voaram por todos os lados e uma pequena criatura com uma enorme barba negra e um poderoso martelo de combate nas mãos saiu, todo sujo de escombros.

— E agora vamos pegar aquele demônio! — Will do Martelo disse.

– Por Leo Jardim

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