O Guardião da Torre de Albon – Episódio Três

Depois de um longo tempo sem publicar nada, segue o terceiro episódio do conto “O Guardião da Torre de Albon“. Se você ainda não leu os episódios anteriores, clique aqui e leia antes. E preparem-se, pois temos mais alguns contos para publicar em breve.

Contos e Crônicas

O Guardião da Torre de Albon

Episódio Três

As estrelas e os livros

Muitos dias se passaram desde o batismo de fogo de Carrião por Rodhes, o Sábio-Guerreiro. Durante todo este tempo, Carrião continuou vivendo próximo à Torre de Albon, num acampamento montado na floresta. Ele gastava seu tempo cumprindo tarefas que Rodhes o confiava. Cortava lenha, caçava, pescava e coletavas frutas e ervas na floresta. Não era grande coisa, mas era melhor que saquear e matar. Cumpria sozinho as tarefas e passava a maior parte do tempo pensando em tudo aquilo que tinha feito. As imagens das vilas em chamas, das crianças chorando e das pessoas aterrorizadas pulsavam constantemente em sua mente. Era uma espécie de pesadelo diurno ininterrupto. Quase sempre tinha raiva de si mesmo e descontava-a nos pedaços de madeira que cortava para usar como lenha. Cada machadada desferida contra os tocos era, na verdade, um talho profundo em seu passado cruel e inglório.

À noite, Rodhes vinha juntar-se a ele. O Sábio-Guerreiro passava o dia todo desaparecido, talvez no interior da torre, talvez galopando pela região. Carrião não podia ter certeza. Não sabia como entrar na torre. Nem mesmo sabia o que havia dentro dela.

— O que é o conhecimento? Onde e como ele está guardado? — pensava. Enquanto comiam a caça no jantar, não falavam muito. Em alguns dias Rodhes parecia mais alegre e revelava os segredos do preparo de uma lebre em um longo e orgulhoso discurso. Em outras noites, era sereno e silencioso. Carrião não falava muito. Não tinha sobre o que falar. Seu passado era a única coisa que conhecia, mas também, o que queria esquecer.

Certa noite Rodhes chegou para comer, como de costume. Estava calado e sério com o evidente cansaço em seus olhos. Acenou com a cabeça e balbuciou um cumprimento. Carrião acenou de volta. A fogueira clareava os rostos abatidos e preparava os graúdos peixes que seriam servidos logo mais. Por algum tempo, reinou o som das corujas ao longe e o estalar da lenha que queimava entre os dois.

— Acho que vou partir amanhã — disse Carrião, quebrando o até então intocado clima de funeral. — Sei que não posso continuar minha vida como mercenário, mas não sei se seria útil aqui. Vou seguir no caminho…

Antes que Carrião pudesse terminar o conjunto de frase desarticuladas, Rodhes o interrompeu. Olhando o céu estrelado, disse:

— Você sabe o que são as estrelas? O que seriam essas pequenas ilhas luminosas perdidas nessa oceânica imensidão escura? Algumas pessoas pensam que são as moradas dos anjos, seres sagrados criados pelos deuses para nos proteger. Outros acham que são as luzes de um lugar chamado Paraíso, para onde as pessoas boas vão quando terminam sua jornada na terra. Os astrônomos dizem que são corpos celestes, pequenos pedaços de rocha incandescente como brasa, que brilham e vagam pelo ar, muito acima de nós. Eu já ouvi muito sobre cada uma dessas ideias, mas eu prefiro pensar que todas estão erradas. As estrelas, para mim, são lembranças. Lembranças deixadas por heróis, que fizeram a diferença em sua jornada por Morgdan, gravando seus nomes entre os que realizaram grandes feitos, imortalizados pelos deuses. Os heróis são pontos de luz na escuridão infinita. — Fez uma pausa. Carrião olhava atentamente para ele tentando absorver suas palavras, tentando se tornar tão sábio quanto aquele homem. Rodhes remexia a lenha com um graveto, fazendo com que pequenas fagulhas saltassem da brasa vermelha e flutuassem no ar, como estrelas-cadentes. Rodhes continuou:

— Mas ninguém se torna um herói da noite para o dia. Não basta matar uma imensa criatura que aterroriza uma cidade, ou libertar uma nação do cárcere ou recolher e guardar os maiores tesouros do mundo. O heroísmo está dentro de cada um de nós. Um herói é capaz de enfrentar o seu maior medo e superá-lo. Para estragar uma colheita basta um único dia de geada. Para ter uma boa colheita, são necessários meses de tempo bom. Assim são as pessoas. Enquanto um único habitante de Morgdan trouxer ódio e trevas em seu coração, não haverá paz ou luz. Sei que nesses dias, sua mente revirou todos seus atos condenáveis. Você se lembrou de cada gota de sangue derramada. Mas sei que seu coração se apertou a cada lembrança. Você expurgou seus demônios, rapaz. Você assumiu e superou seus defeitos. Está livre.

Rodhes tinha agora um estranho sorriso no rosto. Algo sutil como o início da primavera. Ele estendeu a mão e serviu-se de um peixe que quase queimava. Levou-o a boca, saboreando-o. Carrião tinha os olhos fixos, sua mente ao contrário, vagava. Em algum momento entre a queda de seu elmo dias atrás e a primeira mordida de Rodhes naquele peixe, ele se transformara. Suas memórias não eram mais o sofrimento e o ódio. Agora ele se lembrava da lenha que havia cortado, do peixe que havia pescado, das frutas que havia colhido. Lembrava-se de como se deve preparar uma lebre e de como é difícil pegar um javali. Ele sabia sobre algumas ervas da floresta e sobre o que eram as estrelas.

— Coma logo este peixe antes que ele vire carvão — falou Rodhes tirando Carrião do transe mental. Este alcançou o espeto e saboreou seu peixe, fruto do seu novo passado.

Depois do jantar, Rodhes caminhou em direção a seu cavalo para sumir na escuridão na noite, como fazia sempre. Depois de montado, voltou para próximo da fogueira, e disse:

— Sabe, Carrião, eu estou meio velho. Já presenciei mais de 55 primaveras. Nem todas foram ótimas, mas me trouxeram até aqui. Estou cansado e talvez precise de um ajudante. Se quiser ir mesmo embora, como havia dito, desejo-lhe muita sorte e que a justiça de Kolthar prevaleça em sua jornada. Mas se preferir ficar e ser meu ajudante, será uma honra guiá-lo pelo caminho da sabedoria. Esteja de pé antes dos Sóis!

Dizendo estas palavras, atiçou seu cavalo e rasgou o campo em direção ao Ocidente. Carrião continuou de pé, imaginando que tipo de vida levaria daqui para frente.

Os primeiros raios de Sol tangenciavam as copas da Floresta da Alvorada. Carrião esperava por Rodhes, recostado sob a Torre de Albon. De repente, uma pilha de livros atingiu sua cabeça. Recuperado da vertigem inicial, Carrião tomou nas mãos um dos volumes. Era um livro leve apesar da espessura. Suas folhas eram claras no centro mas as bordas amareladas indicavam que não era novo.

Tratado Antropológico Morgdanês. — Lendo a capa. — Leia esses quatro volumes, pra começar. Dois falam sobre Morgdan, geografia e população. Outro é uma coletânea de poemas, profecias e lendas. O último, mas não menos importante, é uma relíquia. Foi achado numa terra distante e o Curador teve muito trabalho para traduzi-lo. Parece ser uma lenda dos humanos, sobre uns tais Cavaleiros da Távola Redonda. – pronunciou Rodhes, vindo da floresta montado em seu altivo cavalo.

— De onde vieram esses livros? — perguntou Carrião ainda afagando o calo em sua cabeça.

— São presentes do Curador. Aliás, foram emprestados a ti. Terá de devolvê-los algum dia. Acho melhor que não os perca, suje ou danifique. Lormeron é muito rigoroso com essas coisas. Sugiro que comece a ler imediatamente. Quando terminar estará pronto para o próximo passo.

Carrião conferiu novamente a espessura dos livros e imaginou quanto tempo gastaria para lê-los.

— E qual seria o próximo passo? — indagou especulando sobre a necessidade daquela tarefa.

— Línguas estrangeiras e uma jornada ao Ocidente! — exclamou com energia, açoitando o cavalo e sumindo novamente pelos campos de Ávalon.

Carrião fez uma careta. Sem ter com quem reclamar, sentou-se e iniciou sua leitura:

“Após tantos anos de aventura atrevo-me a dizer que pisei em todos os cantos de Morgdan…”

– Por Carrião, o Guardião da Torre de Albon

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