Conto: O Sabor da Fúria

Antes de publicar a última parte da batalha contra o Rei de Arkanum, publicamos um conto curto que, assim como “Exterminador“, foge um pouco dos temas comuns do site, mas não totalmente. Escrito por Leo Jardim, esse conto participou do desafio Pecados Capitais do EntreContos e ficou em 7º lugar de um total de 48 participantes! 😀 Leiam e, caso gostem, não esqueçam de curtir, comentar, compartilhar e contar pro colega!

Contos e Crônicas

O Sabor da Fúria

irathus

Estava com muita fome naquela noite. Para um irathus, diabrete que se alimenta de raiva, eu não deveria estar, já que encontrar gente briguenta nas grandes cidades não é nada difícil. O problema é a competição. Os humanos não nos veem, mas somos muitos. Ao redor de cada pecador, existe um enxame de pequenos seres infernais saciando-se da essência do pecado. Para nós, essa essência é como um vapor, uma fumaça. Cada pecado tem uma cor, sabor e cheiro diferentes. E cada um de nós vive de apenas um tipo.

Procurava alimento à noite, na Lapa, o mais famoso bairro boêmio do Rio. Esperava encontrar uns bêbados que começassem uma briga de uma hora pra outra. Alimentar-se de fúria é como encontrar vaga em estacionamento: você tem que rodar e rodar até que ela surja na sua frente. Se aparecer em outro lugar, alguém estará por lá para pegar na sua frente. Vida difícil a nossa, cara. Sortudos são aqueles que conseguem uma alma pecadora. No momento da morte, a alma fica perdida e pode ser reivindicada por qualquer ser infernal (ou mesmo angelical, mas esses nunca estão por perto). É ainda mais difícil e raro que achar vaga, é como ganhar na loteria ou achar alguém que nunca pecou. Aqueles que conseguem, voltam para o inferno e vivem da alma por toda a eternidade.

Sobrevoava pelos becos e vielas internos, em meio a muita confusão, sujeira e cheiro de urina, mas estava sem sorte. O pior era ver aquele monte de succubus satisfeitas de tanto comer luxúria. Isso não falta na noite. A grande maioria das pessoas naquele antro exalava pelos poros a fumaça vermelha sugada por aquelas diabretes de corpo feminino, lingerie, asas de morcego, caudas pontudas e rosto diabólico. Resolvi sair das ruelas internas e tentar a sorte no meio dos playboys e patricinhas. Ali quem fazia a festa eram os invidus e as vanitas, alimentando-se da torrente amarelo e laranja de inveja e vaidade que empesteava o ambiente ao redor daquelas criaturas fúteis.

Mas foi ali perto que encontrei Joana e Alberto. Ela estava sentada em um fradinho, puta da vida. Era loira e usava um vestido branco bem justo, revelando seu belo corpo e sua indecência. Senti de longe o doce aroma de sua raiva e fiquei aguado por aquela iguaria. Era gostoso demais! Em pé ao seu lado estava Alberto, um jovem executivo de terno e gravata, falando ao telefone.

— Ok, amor — ele dizia. — Amanhã de manhã pego a ponte aérea e volto pra casa. Beijos. Também te amo. — Ao ouvir essa última frase, subiu de Joana um odor desagradável de inveja. Esse eu não queria. Queria mais daquela raiva deliciosa. Cochichei ao pé do ouvido dela.

— Alberto, você tem coragem de dizer que ama essa vadia na minha frente! — ela disse, aceitando minha sugestão. O delicioso vapor arroxeado da ira brotava de seus poros, para o meu deleite.

— Calma, meu amor, é você que eu amo — ele tentou acalmá-la, envolvendo-a num abraço carinhoso. — Agora sou só seu durante toda a noite.

Nessa hora, uma succubus se aproximou e estimulou a maldita luxúria nos dois. Aquele fedor nauseante de novo. A competição é foda!

— Ei, sai daqui, sua puta! — gritei. — Ela é minha.

— Ah, sai daqui você, seu sapo gordo! Vai procurar um pit boy, vai.

E fomos discutindo e trocando tapas e socos seguindo o casal até o motel. No quarto, depois de uma sequência de sexo selvagem, a succubus já estava saciada, de barriga saliente, deitada em um canto. Joana lavava-se no banheiro e Alberto fumava na janela. Eu… Bem, eu fiquei na espreita, como um carniceiro que aguarda os predadores saciarem-se para finalmente agir.

O telefone de Alberto tocou. Joana apareceu nua secando os cabelos dourados, implorando com os olhos para ele não atender. Mas ele atendeu.

— Oi, amor! — Essa era a deixa.

Acheguei junto de Joana e falei uma ou duas coisinhas pra ela.

— Alberto, — ela gritou — desliga essa merda de celular e vem me comer agora! — Ah! O delicioso sabor da ira…

— O quê?… N-Não… — ele gaguejou. — Não é ninguém, amor. Ninguém — falava para o telefone.

Eu sussurrei algo como “Ele disse que você não é ninguém”, mas não imaginava que ia surtir tanto efeito. E foi aí que descobri porque a raiva dela era tão saborosa. Era como a cobertura de um bolo: escondia muito mais por baixo.

— EU NÃO SOU NINGUÉM, ALBERTO? — ela berrou. — Me deixa mostrar para essa puta o que essa ninguém aqui pode fazer!

Um incêndio púrpura parecia irradiar de sua pele. Era tanta fúria que eu mal podia sorver tudo. Era como criança e brigadeiro, virgem e puta, geek e iPhone, patricinha e cartão de crédito… Bem, você entendeu, né?

A baixaria foi digna de programa vespertino da TV. Ela berrando grosserias e tentando pegar o telefone e ele impedindo a todo custo. E a chifruda, do outro lado da linha, só chorava. Até que ele irritou-se de tanto apanhar e empurrou a loira. O problema é que eles estavam muito perto da janela e ela desequilibrou-se sobre o parapeito. Alberto ainda tentou segurar, mas apenas conseguiu tocar de leve a última vez naquele corpo quente que tanto o satisfazia.

Quando ela chocou-se no solo e vi sua alma desprendendo-se do corpo, percebi que era a oportunidade da minha existência. Voei pela janela pra reivindicar a alma, já sentindo o cheiro de enxofre, o uivo agonizante das almas e o calor do inferno em minhas escamas…

Mas quando cheguei perto, aquela maldita succubus estava levando a alma de Joana. A piranha foi mais rápida que eu! Essa competição que fode tudo!

E foi assim que eu perdi a grande chance de abandonar essa vida entre os humanos, essas criaturas desprezíveis que se acumulavam ao redor do corpo de Joana, admirando suas curvas ou rindo de seu destino. E daquela multidão de diabretes que voava ao redor inalando seus pecados.

Porra! Que raiva!

– Por Leo Jardim

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Uma resposta a Conto: O Sabor da Fúria

  1. Breno Alves disse:

    Que foda kkkk, gostei.

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